Música
Música e paisagem sonora: os sons de uma rotina invisível
A canção Cotidiano, de Chico Buarque, é um dos fios condutores da narrativa sonora de Tramas Invisíveis. Com autorização para sua utilização, o projeto propõe uma releitura centrada na experiência da mulher que permanece em casa, prepara as refeições, cuida da família e espera a chegada do marido. Nessa perspectiva, a repetição cotidiana revela o trabalho de quem sustenta a vida doméstica, enquanto seus próprios desejos e necessidades encontram pouco espaço.
A interpretação vocal foi realizada por Verônica, cantora de jazz que também colaborou com a produção do projeto. Sob a direção do músico Vinícius Doca, ela trabalhou com uma equipe na construção e montagem da versão da canção para Tramas Invisíveis, integrando a voz à proposta narrativa da obra.
À música foram incorporados sons que atravessam o dia a dia dessa mulher: a panela de pressão, o choro de uma criança, o rádio ligado, o aspirador de pó e a água do chuveiro. Esses ruídos compõem uma paisagem sonora doméstica e tornam audíveis as tarefas, as demandas e os intervalos de uma rotina que se repete.
Cada som marca algo que precisa ser feito ou alguém que solicita atenção. A comida precisa ficar pronta, a criança chama, a limpeza continua. O rádio acompanha os afazeres e preenche o ambiente. Juntos, esses elementos revelam um tempo ocupado pelas necessidades da casa e dos outros, levantando uma pergunta: que tempo resta para essa mulher?
Sua solidão é atravessada pelo barulho. Mesmo em uma casa cheia de sons e presenças, ela pode experimentar a falta de escuta, de reconhecimento e de companhia. A paisagem sonora dá forma a essa experiência: entre tarefas e solicitações, sua vida interior permanece pouco percebida.
Construído como um roteiro de áudio, o encontro entre a interpretação vocal, a música e os sons domésticos conduz a história. É pela escuta que o público acompanha, de maneira mais concreta, a rotina da personagem. As imagens, de caráter simbólico e surrealista, ampliam essa narrativa por meio dos corpos, dos objetos, das fotografias e dos bordados.
Em Tramas Invisíveis, escutar a casa é também escutar quem a sustenta — perceber, por trás de cada ruído familiar, o tempo, o esforço e a vida de uma mulher.
