As obras

O vestido, os figurinos e a maquiagem: memória em cena

Em Tramas Invisíveis, o vestido de noiva é uma obra que reúne fotografia, bordado, poesia e memória familiar. Sua origem está nas lembranças de infância de Renata Maria Doca e no desejo de aproximar quatro gerações de mulheres: sua bisavó, sua avó, sua mãe e ela própria. Para transformar essa ideia em uma peça que pudesse também acompanhar o movimento da dança, Renata e Flávia Kotovski buscaram uma profissional que trabalhasse com criação e confecção de figurinos. Nesse percurso, conheceram a figurinista Rose Macloud, responsável pela concepção e execução do vestido a partir das referências reunidas por Renata e Flávia.

img 0209

Um vestido que guarda histórias

Com referências ao vestuário de época e uma linguagem romântica, o vestido evoca as mulheres que antecederam Renata. As transparências introduzem uma sensualidade delicada e colocam o corpo em relação com as imagens e lembranças que a peça carrega. Sobre o tecido, fotografias do acervo familiar foram aplicadas e bordadas à mão por Flávia Kotovski. O fio vermelho atravessa essas imagens como sinal de vida, sangue e vínculo entre gerações. Cada intervenção aproxima o gesto presente de bordar das histórias preservadas nas fotografias. Na barra, foi incorporado um poema escrito por Renata durante o período em que vivenciava a possibilidade da perda de sua mãe. A palavra acrescenta ao vestido uma dimensão íntima, ligada à intensidade dos afetos e aos vermelhos que a artista reconhece em sua própria história. Para garantir a legibilidade dos versos, esse bordado foi executado à máquina.

Figurinos e adereços: entre contenção e possibilidades

Os figurinos das outras duas bailarinas compartilham a atmosfera romântica do vestido, criando uma relação visual entre as intérpretes. As referências de época funcionam como uma evocação da memória da avó e da bisavó de Renata. Os adereços de cabeça encobrem os olhos. Na proposta da obra, esse gesto sugere a dificuldade de perceber a própria realidade: atravessar uma rotina, reproduzir expectativas e permanecer em uma situação cujos limites nem sempre podem ser reconhecidos. A visão encoberta torna visível uma tensão entre viver uma experiência e conseguir enxergá-la. Em outro elemento do figurino, luvas associadas ao sapato assumem a forma de asas nos pés. As mãos, tão ligadas ao fazer e ao cuidado, tornam-se uma imagem de voo. A peça introduz a possibilidade de deslocamento e liberdade, em contraste com as forças de contenção presentes na narrativa.

Maquiagem: a expressão das tensões

A maquiagem dialoga com o universo visual de Viagem pelo Fantástico, de Boris Kossoy, e com referências do expressionismo alemão. Olhos intensamente marcados, sombras e olheiras acentuadas conferem dramaticidade aos rostos das intérpretes. Essa caracterização participa da construção simbólica da obra. O rosto torna-se uma superfície de expressão, na qual se insinuam cansaço, inquietação e tensões que atravessam a experiência das personagens.

img 0281

Obras que permanecem além da cena

O vestido, as fotografias bordadas, os figurinos e os adereços foram concebidos também como obras que podem ser apresentadas fora do videoarte. Reunidas em uma futura exposição, essas peças permitirão ao público observar de perto os materiais, os detalhes e os gestos de sua construção. Ao lado do audiovisual, formarão um percurso entre corpo, imagem, palavra e objeto, prolongando as perguntas de Tramas Invisíveis sobre aquilo que as mulheres herdam, sustentam e desejam transformar.