Pesquisa e referências

Da memória familiar à experiência coletiva

A pesquisa de Tramas Invisíveis se desenvolveu no encontro entre a trajetória pessoal de Renata Maria Doca, a fotografia de Boris Kossoy e reflexões sobre as condições de vida das mulheres. O vestido de noiva, inicialmente concebido a partir de lembranças da infância e de vínculos entre quatro gerações de sua família, tornou-se o ponto de partida para uma investigação sobre memória, solidão, trabalho doméstico e relações de poder. Durante a pandemia de covid-19, Renata perdeu sua mãe. Internada por um problema cardíaco, ela contraiu a doença durante a hospitalização e faleceu. Essa perda atravessou o percurso da artista e deu outra dimensão ao desejo de preservar as histórias familiares por meio de imagens, objetos e bordados. Na conclusão da graduação, Renata dedicou seu Trabalho de Conclusão de Curso à obra de Boris Kossoy, com foco no fotolivro Viagem pelo Fantástico. Posteriormente, ao ingressar no mestrado em Artes da Universidade Estadual do Paraná — Unespar, aprofundou essa investigação, escolhendo como recorte as imagens de noivas e a representação do feminino.

Boris Kossoy: a imagem como ponto de partida

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Nas noivas solitárias de Viagem pelo Fantástico, Renata reconheceu questões que já mobilizavam a criação do vestido. Sua leitura dessas fotografias aproximou a solidão das personagens das experiências de mulheres que, mesmo cercadas pela família, assumem a responsabilidade de sustentar os vínculos, administrar conflitos e atender às necessidades dos outros. 

Essa interpretação estabeleceu uma ligação entre a pesquisa visual e as histórias de sua mãe, de sua avó e de sua própria vida. As fotografias de Kossoy abriram um campo de perguntas: quem cuida de quem cuida? Que desejos ficam suspensos para preservar uma relação? Que formas de solidão podem existir dentro de um casamento?

Silvia Federici: o trabalho que permanece invisível

Em O Ponto Zero da Revolução, Silvia Federici oferece fundamentos para compreender o trabalho doméstico e de cuidado como atividades que sustentam a vida e a sociedade, embora frequentemente permaneçam sem remuneração e reconhecimento. Em diálogo com essa perspectiva, o projeto interroga a expectativa de que as mulheres estejam sempre disponíveis para cuidar. Os gestos cotidianos de alimentar, limpar, acolher e manter as relações familiares são abordados também em seu custo: tempo, esforço e possibilidades pessoais adiadas.

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Virginia Woolf: espaço e autonomia para criar

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Um Teto Todo Seu, de Virginia Woolf, contribui para a reflexão sobre as condições materiais necessárias à criação das mulheres. A possibilidade de escrever e desenvolver uma obra envolve autonomia financeira, tempo e um espaço próprio. No projeto, essa discussão se aproxima das experiências de mulheres cujas necessidades são constantemente colocadas depois das necessidades familiares. O espaço para criar torna-se também uma questão sobre o direito de existir para além das funções de esposa, mãe e cuidadora.

Pierre Bourdieu: a naturalização das desigualdades

Em A Dominação Masculina, Pierre Bourdieu investiga os mecanismos sociais e simbólicos que fazem relações de poder parecerem naturais. Sua reflexão ajuda a questionar como comportamentos, expectativas e divisões de trabalho são aprendidos e reproduzidos no cotidiano. Tramas Invisíveis mobiliza essa referência para examinar a atribuição do cuidado às mulheres e a desvalorização de suas experiências. A pesquisa pergunta como essas expectativas atravessam gerações e de que maneira podem ser reconhecidas, confrontadas e transformadas.

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Da pesquisa à criação artística

Essas referências se encontram no vestido bordado, nas fotografias familiares, na dança, na performance e no audiovisual. Na construção do videoarte, o procedimento do tableau vivant — ou “quadro vivo” — permite reinterpretar composições fotográficas por meio de corpos em cena, incorporando movimento, duração e som. A pesquisa transforma lembranças pessoais em perguntas compartilhadas. Ao aproximar imagem, corpo e pensamento, Tramas Invisíveis convida o público a reconhecer o trabalho, os silêncios e os desejos que atravessam as histórias das mulheres.

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